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segunda-feira, 25 de julho de 2011

Misantropia Cultural

Não sou poeta, não sou escritor, não sou crítico. Apenas preciso estar em contato com a escrita, um mero cooper para o cérebro. Gosto da escrita, não de escitores. Gosto de cinema, não de diretores ou atores. Gosto de música, odeio shows. Às vezes tenho a sensação que vou para alguns shows ou empurrado pela minha mulher ou para ter certeza de que nada substitui um Cd criativo e bem produzido. Salvo algumas exceções, como o show de Maria Bethania, no início do ano, ou alguma expressão da cultura popular em seu real contexto, prefiro ouvir música no meu sofá, em casa. Se num estúdio, um cantor tem a oportunidade de gravar um milhão de vezes até achar o ponto certo, uma música ao vivo irá funcionar quase apenas para fãs. Nada contra quem gosta de música ao vivo, de aura benjaminiana, apenas prefiro o conforto de casa, a qualidade do estúdio e a oportunidade de repetir uma música sem ficar implorando por bis, coisa que nem sei se existe mais nos shows.

Na literatura, se eu encontrasse alguns dos melhores escritores atuais num elevador, trataria eles como trato o desconhecido vizinho do primeiro andar do meu prédio. Baixaria a cabeça ou falaria do tempo. Se Milton Hatoum aparecesse, não perguntaria sobre o complexo narrador de Relato de um Certo Oriente, mandaria apertar o botão do terceiro andar. Se Cristovão Tezza aparecesse, não o elogiaria pelo O Filho Eterno, puxaria o celular para ver a hora. Se Verissimo fosse para o meu andar, não mencionaria suas crônicas dominicais no Estado de São Paulo, tomaria a sua frente e sairia antes dele, desprezando sua idade e o barulho que iria fazer com seu sax no meu vizinho. Se ao menos pudesse pegar elevador com Ed Mort, A velhinha de Taubaté ou os jogadores de Poquer interminável... mas não posso. Dificilmente um bom escritor será mais interessante que sua obra, ou menos imaginário em suas conversas sobre literatura do que seus personagens.

É isso. Cada um escolhe seu próprio inimigo. Uns tomam inimigos os artistas B do BBB, outros os artistas A da Acadêmia. Eu escolho qualquer um artista. Meu lema agora é esse: o artista só serve para usa arte. Minha filosofia de vida a partir de agora é a misantropia cultural. Digo isso porque acabo de adquirir um Cd da trilha sonora da Turma do Snoopy, um jazz fino e maravilhoso, com títulos como Linus e Lucy e Why, Charlie Brown. Independente de tudo, pode ser a música dos Marsalis, mas é também a música do Charlie Brown e do Snoopy. E para mim, isso basta.

Ps - Há um tempo penso em manter postagens realmente regulares. Vamos ver se às segundas e sextas funciona.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Se eu fechar os olhos agora: além do romance de formação


Sempre que se coloca em primeiro plano personagens adolescentes, não demora muito para alguém expor o termo “romance de formação” como característica central da obra. Não acredito que seja o caso de Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre.
O romance aborda as investigações de dois amigos, Paulo e Eduardo, e um senhor idoso, Ubiratan - o comunista torturado na Era Vargas -, na tentativa de desvendar os reais motivos do assassinato brutal de uma bela mulher, Anita. Logo as suspeita de que há algo não esclarecido na versão oficial desta morte vão gerando um mosaico de eventos ligados às relações de poder dos antigos coronéis, donos de redutos populacionais; às violências arbitrárias destes poderosos e às formas como aquela sociedade dos anos 50 se mostrava propensa aos discursos oficiosos.

E porque não seria um romance de formação? O palpite é de que os garotos não conseguem compreender ou não têm acesso à trama total do assassinato. Eles são importantes na captação de provas e na orientação de possibilidades de questionamentos, mas os eventos da trama não determinam o caráter dos mesmos, nem os modificam. São personagens prontos na história, não exigindo a tão conhecida “passagem para a maioridade”. Até mesmo quando o romance avança no tempo cinquenta anos depois, evidencia que Paulo e Eduardo não conseguem compreender bem o que ocorreu à mulher. É o personagem Ubiratan quem tem acesso às principais informações sobre o desvendamento do caso, nunca compartilhadas com os meninos. Paulo e Eduardo se perguntam e sempre se perguntarão sobre o que, de fato, ocorreu à mulher morta.

Chama atenção estilisticamente no romance os diálogos, ora autoritários, ora desrespeitosos. Os meninos não conseguem extrair informações de Ubiratan, pois nunca são levados à sério por este. Ubiratan, por sua vez, não consegue dialogar com as pessoas, pois na condição de velho, não é ouvido pelos donos do poder ou pelas pessoas comuns. Mesmo assim, os diálogos acontecem e justamente por isso, apresentam uma forma curiosa.


SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA
Edney Silvestre
Editora Record, R$ 34,90
Vencedor Jabuti 2010

Leia aqui primeiro trecho de Se eu fechar os olhos agora

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Quando a política ofuscou a arte

Pode não ter sido o melhor romance do ano de 2010, de acordo com o Prêmio Jabuti, mas Leite Derramado, de Chico Buarque, com certeza foi o mais polêmco. Tudo porque o autor recebeu o prêmio de escritor do ano e seu romance ter ficado em segundo lugar na lista dos melhores do ano, atrás do romance de Edney Silvestre, Se eu fechar meus olhos agora.

De fato é um pouco absurdo dar status de Oscar a um prêmio literário. Explico: no cinema, evidentemente, devido sua condição de produção técnica coletiva, pode se dar o direito de premiar um filme como melhor e seu diretor não ser também premiado em sua categoria. Já o romance, de solitário constructo, seria possível? O fato é que é óbvia a decisão por uma questão de política literária.

Mas quanto ao romance propriamente, ele é acima da média e bem poderia ser o melhor romance do ano, caso outro escritor não tivesse alcançado mérito similar. A história de um enfermo de idade centenária Eulálio Assumpção - que narra seu passado sob condiçoes de dor, desvario, lapsos de rememoração, amésia e perda de linha de raciocínio - é desenvolvida de tal maneira que perpassa, com tom melancólico e decadentista, vários sujeitos representantes de diversos momentos da história do país, desde o político conservador ao leleco carioca do Rio Contemporâneo. A condição de Eulálio permite ao leitor compreender as mudanças súbitas de um assunto à outro sem se preocupar com a coesão cronológica dos fatos. O próprio narrado desvenda em uma outra passagem a consciência de sua condição e o quanto isso interfere na narrativa: É esquisito ter lembranças de coisas que ainda não aconteceram, acabo de me lembrar que Matilde vai sumir para sempre.

Nesta perspectiva, estilisticamente, Chico utiliza, como nos seus outros romances, do recurso de progressão de uma hipotética ação através do tempo no futuro do pretérito: Minha pequena filha cresceria cercada do bom e do melhor, e mais bonança teria minha mulher, se algum dia voltasse para casa. A ação fica apenas na memória, como um atiçar da imaginação, mas que dentro da materialidade do romance, se torna movimento. E isso dá riqueza à complexidade narrativa de Leite Derramado. Infelizmente, um ótimo romance pode ficar marcado e lembrado por uma polêmica extra-literária.

LEITE DERRAMADO
Chico Buarque
R$ 31,20
Vencedor do 8º Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010.
2º Lugar no prêmio de melhor romance do Jabuti 2010.

Leia o primeiro capítulo de Leite Derramado

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Velho Testamento Em Um Novo Saramago

Caim, mais recente obra de José Saramago, bem que poderia ser "O Velho Testamento segundo Deus", já que aborda ficcionalmente os primeiros livros da bíblia, aproximando-se do tão conhecido O Evangelho segundo Jesus Cristo. Mas não foi a opção do escritor português.

Em Caim não há a profundidade e seriedade dos eventos, nem o tom humanista dado aos personagens bíblicos como se dá na primeira investida de Saramago sobre as escrituras cristãs. No livro recente, tudo se dá de imediato, de maneira sucinta, o próprio livro é bem reduzido em suas 180 páginas. A ação, outroe xemplo, é bastante enxuta. O leitor em poucas páginas transita da criação para a morte de Abel. Até mesmo as ironias e as críticas às contradições da Bíblia são apontadas objetivamente, em frases diretas, sem rodeios. Recurso estilístico para se aproximar das passagens bíblicas, também de trechos curtos? Intenção de fugir totalmente do fantasma da comparação ineviável com o outro romance? Mesclar tradição e modernidade? Talvez tudo isso, mas acaba não sendo o bastante, pois  aproxima-se do que se pode chamar de simplismo.

Embora, como romance independente, narrativa e linguagem fluam, falta justamente o cárater bíblico da linguagem, aproximar-se mais da atmosfera do Antigo Testamento como o próprio autor já demostrou ser possível de se realizar. Caim não é um livro chato, é humorado e várias das principais características do escritor estão presentes nele. No entanto, o livro é muito simplificado para quem poderia doar-se muito mais.  


Ass. Helber