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domingo, 10 de abril de 2011

O tempo da serenidade



Em tempos de individualismo exacerbado, de mercado competitivo/acelerado e de intolerância e preconceito cultural, o filme francês Homens e Deuses, baseado em fatos reais, é uma lição de serenidade. O filme foi ganhador do prêmio do júri do Festival de Cannes e indicado pelo seu país ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

No filme, os monges de um mosteiro na Argélia são alvos certos de radicais islâmicos. A decisão de partir é um incógnita para os cristão, já que são o único ponto de apoio humanitário para a população. Por outro lado, os militares pressionam pela retirada dos mesmos, prevendo um problemas com a diplomacia mundial.

O que chama mais atenção no filme é justamente o mais óbvio: o humanismo, a simplicidade e a fé caridosa dos monges. Eles não estão lá para pregar a palavra, nem demarcar espaço do cristianismo. Sua relação com os islâmicos - não-radicais e até mesmo com os radicias - é tenra e verdadeira. O filme é lento, devagar, paciente e tranquilo como a ida dos monges, apto para deixar o espectador refletir dentro do proprio filme antes do enredo aançar mais à frente. Ponto forte também é sua trilha, na voz dos monges ou do Imam.

HOMENS E DEUSES
(Des hommes et des dieux, França, 2010)
Dir. Javier Beauvois
Estreia 25.03.2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"Você vai conhecer o homem dos seus sonhos" não terminou


Anualmente os filmes de Woody Allen são muito esperados. Atores e atrizes esperam serem chamados para o elenco e fãs esperam os novos enredos da fase, digamos, mais cult do diretor. Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, que entra em cartaz em João Pessoa nesta sexta-feira, na estreia do Cinespaço localizado no Mag Shopping, fecha a década dos filmes de Allen em tom ameno.  Comparado a Melinda e Melinda, Match Point e Vicky Cristina Barcelona, o filme não possue o encatamento dos intrigas nem a complexidade dos personagens deste três anteriores.

O filme retrata a vida de um casal, ele escritor e ela curadora, que vivência uma crise econômica e afetiva. Logo se percebe que esta crise se espande a todos os personagens que envolvem o casal. Parentes, colegas de trabalho e vizinhos também se encontram em situação de desarmonia amorosa. O tom de fisolofia irônica e as crises existênciais, como sabemos, não poderiam faltar. Além disso, os principais personagens do "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos" regem suas vidas em nome da arte. Estão la o escritor em dificuldades criativas, a musicóloga doutoranda, a curadora competente, a pintora talentosa, o velho que gosta de ópera no teatro. estes traços garantem o sucesso de Allen de público e crítica.

Porém, o curioso é que por mais intricado, complexo e pessimista que seus filmes ossam ser, sempre havia em Woody Allen a esperança do final de destino otimista para a vida. Que tudo pode dar certo, apesar dos pesares. Só que o final cômico ou de happy ending singelo, estilo registrado do diretor, foi abandonado neste último filme, o que nos dá a sensação de que os personagens ainda deviam econtrar a harmonia da vida. Para os que estão acostumados com Allen, a sensação é de que o enredo ainda não acabou. Ainda falta o desfecho satisfatório, mesmo que a intensão seja de mostrar a volubilidadee incertezas da vida, sentimos falta da esperança.

VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS
(You will meet a tall dark stranger, EUA/Espanha, 2010)
Dir. Woody Allen
Estreia: 14/01/2010



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Além da vida trata mais da vida que do além

Há muitos filmes que abordam a espiritualidade pós-vida. Os de caráter praticamente didático e moralizante, como os últimos brasileiros Nosso Lar e Chico Xavier, ou os de desconstrucionismos epifânicos, como em Sexto Sentido e Os outros. Hereafter, em cartaz nos cinemas da cidade, de Clint Eastwood, não se encaixa em nenhuma das pontas, embora em determinados momentos tente.

O filme se desenvolve em três narrativas paralelas: o vidente médium que realiza a conexão com os mortos, a repórter que vivência uma experiência de trascendência da alma e o garoto que perdeu o irmão gêmeo e busca compreender um sentido para a morte. Evidentemente, as narrativas estão aptas ao encaixe.

Das qualidades, talvez o ponto forte do filme seja justamente a luta dos personagens convictos contra a descrença, mais do que a relação com os mortos, mais do que a verdade deixada pelo filme mais do que as cenas fantásticas do tusnami. E a descrença vem de todos os lados: do exterior para a jornalista, do interior do garoto e da não aceitação do vidente, interpretado por Matt Damon.É um filme de nome Além da vida que tem seu foco na vida.

Mas o filme deixa muito a desejar enquanto narrativa. Em alguns momentos ela é tão lenta que se torna enfadonha - como no caso da crise existêncial do garoto -, não gera expectativa de um núcleo para outro e o desfecho é, como disse, um encontro muito óbvio. No contexto da obra de Eastwood, está em um patamar secundário.

ALÉM DA VIDA
(Hereafter, 2010, EUA)
Dir. Clint Eastwood
Estreou: 07/01/2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O assumido e o equilibrista


Mine Vaganti é um daqueles filmes exibidos em pequenas salas escondidas ou em alguma sessão de festival antes de um outro filme mais esperado. Mas é um filme agradável. A história é sobre dois irmãos gays que tentam revelar suas opções sexuais a família italiana numerosa e tipicamente do interior.

Coomo dito, Antonio e Tommaso são gays. Tommaso revela ao irmão que pretende assumir sua homossexualidade no jantar da família, mas Antonio se antecipa e se declara primeiro, originnando um estado de caos na família e deixando Tommaso em situação de silenciamento para não ferir o já abatido sentimento dos pais. 

O filme consegue equilibrar os dramas sentimentais dos irmãos gays, principalmente de Tommaso, com vários momentos cômicos proporcionados pelo pai, incrédulo, e pelos amigos gays. Um exemplo é que ao mesmo tempo em que os colegas de Tommaso, que foi estudar economia em Roma para tocar os negócios da família, chegam a casa e têm que inutilmente conter os trejeitos homossexuais, ele, Tommaso, tem que lhe dar com seu companheiro, um desses colegas, que não aceita a sua permanecia disfarçada. Bons pontos do filme está na retratação da família italiana, com seus exageros, aparências, dramas e melodramas. É um filme que põe o tema da opção sexual em discussão com doses sutis e equilibradas de humor e seriedade. Atenção especial para a trilha sonora.

O PRIMEIRO QUE DISSE
(Mine Vaganti, Itália, 2010)
Dir. Feznam Ospetek
Estreia: 01/01/2011 - São Paulo

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

AVATAR: para além da estética formal.




 Mesmo diante de todas as receitas prontas e melodramáticas que o enredo de Avatar arrasta, há algo ali que escapa à linguagem desgastada dos clichês, promovendo uma certa singularidade, que caracteriza a arte bem sucedida. Não me refiro unicamente às maravilhas surpreendentes da tecnologia visual do longa. Na verdade, talvez seja isso mesmo, mas não num sentido reducionista: a tecnologia em Avatar, a serviço da arte, promove o prazer estético, no sentido primordial da palavra – estética / estesia : sensação do belo, que vai além da beleza formal.

Os Na'vi agindo como se fossem humanos, recordam valores primordiais representados na figura do “Bom Selvagem”, que não possui a subjetividade estilhaçada pós-moderna, mas sim a visão objetiva da Natureza como divindade, à qual consagram sua vida e também à qual estão intimamente conectados. Através dos tentáculos de suas tranças, os Na’vi trazem à tona, metaforicamente, a antiga lição de que somos componentes irrevogáveis de um cosmos, ou melhor, de uma organização, quer seja divina, quer seja biológica. E ainda que isso seja uma idéia que o cinema exauriu, na arte de Avatar, não soou como um clichê arruinado. Talvez se a narrativa fílmica de Avatar fosse desenvolvida através das ações de “atores reais” holliwoodianos, a estesia que evoca nossa humanidade não seria a mesma. O que conta é o componente do maravilhoso e da fantasia promovidos pelas articulações da computação gráfica, movendo no expectador (talvez sendo aqui eminentemente impressionista) um sympathos , “um sentir com” a civilização de Pandora. Não há nada mais dilacerante do que ver a “Árvore das Vozes”, esteticamente exuberante, tombar sobre os Na’vi, que, em decorrência da perversidade melodramática do coronel Miles, perdem parte de seus referenciais mítico-ancestrais.

Usando a extrema tecnologia, dialeticamente, James Cameron provoca em nós, pelo menos ao longo das 2h40min de exibição do filme, a Esperança - único sentimento restante na caixa de Pandora – de restituição do Sagrado, assim como nas civilizações arcaicas “atecnológicas”.


Ass: Leyla

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Sonhos de Mulheres: plenitude em Eros

O filme Sonhos de Mulheres (1955) de Ingmar Bergman me parece uma reatualização do mito do ser mulher (“mito” aqui entendido no sentido de histórias que conferem significação à existência humana). Não é preciso discorrer muito para expor sobre o que esse mito nos revela – de que a mulher é, por excelência, fadada às paixões, sobretudo, à “paixão erótica” (de Eros), que vai além da pulsão da libido, uma espécie de afecção da alma que busca a plenitude num outro, objeto de seu amor, de forma que a falta  desse outro torna a vida, por assim dizer, vazia de sentido.

O enredo de Sonhos de Mulheres concentra-se, obviamente, nos desejos e frustrações de duas mulheres: Suzanne, que é uma mulher emancipada e dona de uma oficina de moda bem sucedida, mas vive atormentada pelo amor sem perspectiva dedicado a um homem casado; e Dóris, uma jovem modelo da oficina de Suzanne, aparentemente fútil, que vive aflita com a vida ordinária que leva ao lado do pouco refinado noivo. A ação fílmica inicia-se com uma viagem feita por Suzanne, para realizar uma seção de fotos de sua coleção de moda, cuja modelo representante será Dóris.  Não por acaso, Suzanne escolhe a cidade de seu amante para realizar esse trabalho, uma vez que é movida pelo desejo ardente de revê-lo. Já Dóris vê nessa viagem a possibilidade de fuga do comum, do cotidiano, rumo ao glamour, à plenitude do luxo.  Talvez por isso as ações de Dóris me pareceram menos instigantes, pela conduta fútil e pueril da personagem. 
           

 Voltando ao tema do arrebatamento amoroso, ou melhor, erótico, pelo qual miticamente as mulheres são tomadas, com as ações de Suzanne, Bergman faz valer a afirmativa de que o “termômetro da mulher é o amor”. A maturidade e o discernimento que a personagem parece ter não são suficientes para dissipar a dependência afetiva em relação ao amante. A falta completa de autonomia diante da paixão faz de Suzanne uma heroína trágica. Heroína, porque a mulher que sofre de amor tem sua compensação, já que o amor, de alguma forma, traz a nobreza da entrega. Para os homens, a dor de cotovelo é ridícula, como diz Jabor: “A mulher enganada tem ares de heroína, o homem corno é um palhaço.”